domingo, 21 de agosto de 2011

Primeiro Dia

Depois de quase seis horas de viagens, finalmente a estrada de asfalto é substituída pela de barro e começamos a ter certeza de que realmente estamos no sertão baiano. Depois de vermos a mata verde vibrante existente até o meio da viagem ser trocada pela caatinga, os grandes rios trocados por leitos rachados – e os bois, pelos bodes, depois de já estar achando a viagem cansativa, chegamos ao Mirante Antônio Conselheiro.
Sem ter idéia da paisagem que encontraremos ao subir, os professores nos dizem que “é importante ter uma idéia geral de Canudos e sua região antes de explorar cada ponto da cidade”. Ainda com os olhos meio fechados, saímos do ônibus e começamos a subir uma colina cujo outro lado era inteiramente inédito aos nossos olhos.
Executamos a hercúlea tarefa de subir uma rampa de pedra (que, ao começar com um “mata-burro”, despertou perguntas curiosas) e então chegamos a um largo onde havia uma pequena igreja precedida de um cruzeiro de madeira. Desde ali, pudemos finalmente contemplar Canudos “de cima”, ter uma idéia ampla sobre toda a região. Mas ainda era preciso subir uma escadinha até o mirante, em si.
Lá chegamos e lá permanecemos – não por muito tempo, nosso roteiro no primeiro dia era mais que justo – a contemplar a cidade que ficava aos pés de Antônio Conselheiro, devendo-lhe tanta devoção pela imensa coragem posta em prática na Guerra.
Dali, fomos visitar a feirinha de sextas-feiras que há em Canudos, e chegamos a conclusão de que é um dos melhores lugares para se conhecer a essência da cidade. Descobrimos que a maioria dos vendedores vêm de outros lugares para ganhar dinheiro lá, e que também ninguém sabe nada sobre a Guerra de Canudos. Entrevistamos inúmeros feirantes e obtivemos preciosas informações a respeito da cidade.
 Mas a feira livre, conforme nos contaram, era muito diferente: De qualquer jeito, nunca foi direcionada para o turista, senão para o morador local, mas os controles remotos ficaram no lugar de candeeiros e panelas de barro, que quase não eram encontrados. A feira retrata o sertão que quer ser capital, quer consumir, quer se sentir desenvolvido, que quer virar mar.
Chegamos ao hotel, nos dispomos nos quartos, almoçamos o típico prato canudense – bode frito – e já partimos para engolir mais conhecimento: Desta vez, fomos ao museu Memorial Antônio Conselheiro para conhecer mais sobre a Guerra vista pelo lado histórico da coisa. Ouvimos dados técnicos sobre a guerra e vimos as espécies de plantas mais famosas do sertão:  Juazeiro, Favela e todos os tipos imagináveis de cactos.
Fomos, depois de comprar folhetos que narravam toda a história do Arraial, para o Parque Estadual de Canudos presenciar tudo o que ouvimos até agora. O ápice de nossa viagem, a razão pela qual viemos aqui estava prestes a ser revelada.
Depois de chegar à entrada do parque, onde havia um arco que serviu de fundo para nossa foto oficial, Fernando nos leu um texto (estava escrito em uma placa fixa) falando sobre a bravura dos últimos soldados e seguimos para o Alto da Favela a fim de testemunhar um crepúsculo inesquecível que acontecia enquanto Fernando nos falava da história da Guerra e de Antônio Conselheiro... A luz mais pura e admirável que já conhecemos se punha aos nossos olhos, que também viam toda a terra onde homens morreram lutando por justiça e todo o terreno da Guerra, cruz de madeira crua sombreava perfeitamente o outro lado do morro... Momentos – sem dúvida – inesquecíveis.
Andamos passando perto da margem do açude até as ruínas de um hospital, se não me falha a memória, feito com o intuito de cuidar dos homens que na guerra lutaram.
Do Parque Estadual de Canudos, fomos fazer uma visita noturna à casa de S. Pedro, um canudense que nos recebeu com as melhores intenções do mundo, onde tomamos uma aula de Astronomia com Fernando e, sobre uma lona estirada no chão seco, improvisamos um verdadeiro sarau de transbordante poesia, ora declamadas por Ana Lúcia, Gabriela ou Fernando. Contemplamos as estrelas como nunca o havíamos feito.
Voltamos ao hotel (onde os engenheiros da Terceira Canudos e hospedaram) e dormimos, mas sabendo que menos de quatro horas depois, às 4:30 da manhã, já estaríamos saindo para continuar esta incrível jornada. 






Por “Dia I”.



                                                                                                                               Texto: Alexandre Leone.




Um comentário:

  1. Considerações das professoras: Ana Ramos & Márcia Gabriela.
    Fotos com legenda. Texto com estilo criativo e perspectiva de diário, conforme solicitamos.
    Excelente!

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